27 Outubro 2009

ALCIDES, o pequeno sapo

Era uma vez um pequeno sapo chamado Alcides.

Certo dia, navegava ele tranqüilamente pelo rio abaixo, numa grande folha de Vitoria Régia, quando ouviu um assobio.

Para afastar o medo, encheu o peito de ar e coaxou o mais forte que sabia.

Enquanto isso, com um olho lia as sombras na água e com o outro varria atentamente a margem mais próxima.,e depois a outra, e por fim a copa das árvores.

Nada se movia, nada se ouvia, só ele continuando lentamente pelo rio abaixo.

Aprendera este truque de olhar dividido, com um primo distante, lá de Portugal, o Manezinho Camaleão. Ele viera passar férias a este lado do oceano, e tornaram-se grandes amigos, ensinando um ao outro as suas habilidades.

Alcides maravilhava o primo, que temia a água, com seus longos mergulhos e saltos de folha em folha.

Por seu lado Manezinho exibia a cauda que mais parecia um terceiro braço, e movia os olhos salientes em rotações completas, cada olho fazendo o que bem lhe apetecia.

Quanta coisa para recordar dessas breves férias...

Novamente um assobio, agora mais forte, interrompeu os pensamentos do sapinho, que já preocupado a valer, redobrou de atenção e mal respirava para melhor ouvir.

Foi então que viu as ervas e flores junto dum lindo Ipê Amarelo, a se movimentarem, parecendo até que andavam de roda.

Muito estranho! À volta, tudo o mais estava parado, como que dormindo ou encantado. E Alcides concluiu pois que seriam as flores e as ervas cantando e bailando que causavam tal reboliço.

Está tudo bem, pensou. E recostou-se no seu barco-folha, saboreando um inseto que passara perto.

Ora aí está um assunto que gostaria de contar ao primo, quando se encontrassem de novo: A dança das flores e do vento. Isso é que ele iria ficar admirado...

Alcides, já consciente da importância do "causo", dirigiu a embarcação para a margem e em três saltos atingiu uma moita de arbustos próximo da roda silvante.

Todo o cuidado é pouco quando nos deparamos com comportamentos estranhos, e, sem sombra de dúvida, aquele era o caso.

Aproximou se um pouco mais, e de repente, sem que pudesse saber porquê, começou a ter uma vontade louca de rodopiar também.

E dançou, dançou, como nenhum sapo antes dançara.

Por fim, reunindo todas as suas forças, deu um enorme salto para cima duma rocha. Ele sabia que as pedras, fora de água, só muito raramente se mexem.

Estava exausto, cheio de sede, reparou então que a língua se lhe enrolara no pescoço, como se fora um cachecol. Felizmente, ainda havia alguma água da chuva da noite, depositada nas reentrâncias da rocha. E mergulhou nesse banho benfazejo e reparador.

Lembrou-se da Mãe Sapa que sempre lhe dissera para nunca se afastar da água, e de como ela, a água, era tão preciosa e necessária. E lembrou-se do Pai, o Pai Sapo, que sempre observava tudo atentamente antes de se aproximar, e se possível camuflado entre os verdes da vegetação, só com os olhinhos de fora.

Estes pensamentos levaram Alcides a saltar para umas folhas bem verdes e cobertas de orvalho. Então pôde olhar melhor à sua volta

E foi aí que viu uma coisinha vermelha se movendo de um lado para o outro.

Parecia um cogumelo, mas isso era impossível, nunca ouvira falar que eles pudessem andar por aí a correr pelos campos.

Ah! Ali havia coisa! Oh se havia!

Como que respondendo às suas dúvidas, novamente se forma um remoinho, e as flores, as folhas, as ervas, todos começaram a girar à volta do tal pontinho vermelho, que até fumegava.

Antes que conseguisse fugir, ouviu uma gargalhada, também ela voadora, e meio tonto, rebolou para o chão, caindo no meio do baile.

Que surpresa o esperava.

Segurando um cachimbo e saltitando numa perna só, estava um negrinho rindo e agitando seu chapeuzinho no ar.

Pois não é que era seu Saci em pessoa!

E Alcides nem sabia se devia aproximar-se, ou correr para bem longe dali.

A curiosidade venceu, e enchendo-se de coragem, cumprimentou aquele ser endiabrado, mas simpático.

- Como vai. Festejando a Primavera?

- "Eh! eh! eh!

Não tens medo de mim?

Eh! eh! eh!

Sou o Saci Pererê,

Eh! eh! eh!

Tudo sabe e tudo vê!"

- "Quero ser seu amigo, isto se o Sr. deixar", disse o pequeno sapo, já feliz com o rumo da conversa.

- "Eh! eh! eh!" , respondeu Saci:

"Quem é ruim

fuja de mim,

quem é mau

leva com pau,

quem é tolo

leva com bolo,

quem bem quer

pode me ver."

E isto dizendo, mandou parar o vento, e tudo à sua volta se aquietou.

Saci olhou dentro dos grandes e admirados olhos do sapo. E gostou do que viu.

- “És um bom rapaz

e isso me apraz

Um pouco curioso.

e algo teimoso

Tens bom coração

serás meu irmão!”

E assim foi que ficaram grandes amigos.

Saci convidou Alcides para a festa que estava comemorando naquele dia com as plantas da redondeza, e explicou como era uma data importante, dizendo que todo ano se deveria lembrar disso.

O sapo ficou assim a saber que, todo o dia 31 de Outubro, era dia de Saci.

Alcides prometeu nunca esquecer, e depois de pensar um pouco na forma de comemorar, disse:

- “Pois meu bom Sr. Saci, saiba que sempre o lembrarei, e mais, vou ensinar a todos os sapos, rãs, salamandras e camaleões a assobiar e fazer remoinhos na água. Não o abraço porque minha pele está sempre molhada, e também seu cachimbo me faz tossir.

Adeus e obrigado pela festa”

E isto dizendo, saltou para o rio e desapareceu, deixando atrás de si círculos e mais círculos, que se alargavam pela superfície da água até à margem, onde Saci os apanhou e atirou ao ar .

Que lindo Arco Íris se formou

E Saci riu de contente e dançou numa perna só, que até dava gosto ver.

Esta foi a história do pequeno sapo Alcides, que encontrou o Saci na floresta à beira dum rio.

***

Claro que Alcides seguiu logo para a sua casa, no lago ali próximo.

E foi uma falação disto e daquilo, de como tinha ficado amigo e até dançado com o Pererê do gorro vermelho, das flores e do vento, da prosa que trocaram, e de como haveria de escrever contar esta aventura a seu primo Manezinho.

Os Pais sorriam e diziam que sim, sim, mas vai dormir meu filho!

E que sonhos ele teve nessa noite cheia de estrelas e luar.

Mas isso fica por contar, pois os sonhos fogem ao acordar.

Eugénia Tabosa

Outubro 2009

C-008 - O MENINO QUE NASCEU DE UM OVO

Era uma vez um menino que nascera de um ovo duma galinha pedrês.

O menino não era amarelinho, nem tinha penas, nem bico como seus irmãos de ninhada, era mesmo um menininho carequinha e rosado. Em comum tinham a boca sem dentes e os olhos redondos.

- (Pensamento terrível: e se antes dele ter nascido o ovo tivesse sido cozinhado?).

A mãe galinha dava-lhe de comer, ensinava-o a esgravatar a terra e como devia esticar o pescoço depois de beber água. Quando se portava mal ou não obedecia, recebia amorosas bicadas, como qualquer pequeno pinto

Um dia o menino começou a falar em vez de piar. Foi um reboliço no galinheiro. Todos os pintainhos fugiram dele, a galinha pedrês cacarejava desesperada e os demais companheiros, o galo, a pata e o peru davam saltos e batiam as asas.

Então o menino ergueu-se, andou, abriu a porta de rede e foi-se para a vida. Cresceu e virou um rapazinho e depois um homem. Mas nunca dizia ter nascido de um ovo. Vergonhas...

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Lisboa, 1950

C- 007- ERA UMA VEZ – (contava eu a minha filha):

Dona Joana Carochinha saiu. Era uma manhã cheia de flores e as estrelas à muito que dormiam.

O sol ainda não chegara, havia um lago a meio do caminho onde ele gostava de se olhar e por vezes esse olhar era tão longo que os dias ficavam cinzentos e as nuvens choravam de sós.

A joaninha, como não fazia calor não levava chapéu nem sombrinha, ia leve e de corrida de flor em flor.

Falava-lhes baixinho com palavras redondas e pequenas.

As flores olhavam-na, escutavam, sorriam cheirosas e abanavam as cabeças.

Então ela lá voava para outro tufo de flores e outro e outro, mas todas continuavam a acenar que não, acabando algumas por se fechar, outras a se encobrir com folhas e até umas poucas a enfiar o nariz no chão na maior das tristezas!

Desanimada, ainda menor na sua capa vermelha de bolinhas pretas, pousou por fim num bambu junto ao lago, mas longe da margem e das rãs. E chorou em silêncio.

Foi nisto que surgiu o Sol espreguiçando os raios por entre as nuvens que pareciam pássaros a esvoaçar.

E o jardim todo se iluminou, criou vida e sons e aromas. As flores só não dançavam de felicidade por terem nos pés os sapatos de terra.

Então o Sol viu Joaninha quieta, parada e sem sorrir como era costume quando ele aparecia. E quis saber o que se passava.

E ela contou:

- As flores eram tão lindas e ela gostava tanto, tanto delas que hoje resolvera perguntar se alguma quereria ir com ela morar. Mas a sua casinha era pequena, era aquele buraquinho no muro da hera... Então nenhuma flor do jardim lhe disse que sim, que teria muito prazer etc. etc., nem uma só quisera ir com ela viver!

O Sol disse que iria pensar e que no outro dia lhe traria flores pequeninas.

E assim foi...

Quando Joana Carochinha tornou a sair na manhã seguinte, depois de as estrelas à muito dormirem, chegou o Sol com um raminho de miosótis azuis.

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Parede, 1960

23 Abril 2009

MC 059 – Noite de cachaça

Noite de cachaça e vapor de gin, seguiu sonâmbulo o som da viola e cheiro a alecrim da nova amiga. Que susto de manhã bem a seu lado um cavalo sorria.

MC 058 – O amolador

O amolador passa na vila anunciando seu ofício, acompanhado pelo latido dos cães e desespero das lavadeiras com suas trouxas à cabeça: “Maldito sejas”